Durante décadas, habituámo-nos a ouvir dizer que um dos problemas de Portugal era a baixa qualificação da sua população. Era a pesada herança de quase meio século de um regime que cultivava o obscurantismo e a pobreza como atributos essenciais de uma ética e de uma forma de ser. No prazo de duas décadas, essa amarra ao passado foi destruída. No ano 2000, apenas 12,8% dos portugueses entre os 25 e os 34 anos tinham uma licenciatura; no ano passado, esse valor representava já 43,2% dessa classe etária. Numa geração, Portugal saiu da cauda da Europa para o meio da tabela. Ainda longe da Irlanda ou dos Países Baixos. Mas acima da Finlândia, da Alemanha ou da Itália.
É por isso que quando ouvimos Francisco Fernandes, presidente da Federação Académica do Porto, dizer, como disse à TVI, que o Ensino Superior está a acentuar as desigualdades sociais, temos de ficar alerta. A universidade, apesar de todos os seus limites ou problemas, é ainda a melhor forma de promover a mobilidade social. O que se está a passar? Este fim-de-semana foram revelados os números de alunos que ingressaram no ensino superior e verificou-se que, este ano, há menos 12%, ou seja, uns seis mil alunos, a entrar nas universidades portuguesas.
Há quem reclame prudência na análise dos números e recomende que se espere pelas colocações na segunda fase. Mas há já também quem queira rever em profundidade os modelos de acesso, muito dependentes dos exames nacionais, que alegadamente estão a fechar as universidades e politécnicos a milhares de jovens. Em especial os mais desfavorecidos. Depois do boom nas qualificações que, reconhece o Banco de Portugal, explica em grande parte o comportamento da economia portuguesa da última década, estaremos a andar para trás?
A Andreia Sanches é jornalista do Público e acompanha há anos a educação em Portugal. A Andreia é a convidada deste episódio do seu podcast da manhã.
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