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Filme brasileiro sobre bebê sequestrada na ditadura faz estreia mundial no Cinélatino, em Toulouse

24/03/2026
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O longa-metragem “Ela foi ali guardar o coração na geladeira”, de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão, aborda a história de uma mulher sequestrada quando bebê, no período da ditadura militar. O filme fez sua estreia mundial no festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, na segunda-feira (23).

Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse

“Ela foi ali guardar o coração na geladeira” compete na categoria longa-metragem de ficção do evento. De forma extremamente original, o filme traz um compilado de “cartas-vídeo” em que a uruguaia Veronica conta para a sobrinha, a porto-alegrense Luiza, a história de sua vida, que considera “uma farsa”.

Veronica é filha de uma presa política brasileira, morta durante o regime militar, mas foi “doada” quando bebê a uma família vinculada à ditadura no Uruguai. A personagem foi criada com base em histórias de crianças brasileiras sequestradas nesta época fatídica, que só vieram à tona recentemente.

“Isso era algo que se acreditava que não acontecia no Brasil”, diz Cristiane Oliveira, lembrando que até hoje paira no imaginário das pessoas que esse tipo de crime ocorreu em outros países sul-americanos palco de ditaduras, como a Argentina e o Chile. “Comprovou-se recentemente que isso aconteceu sim, e isso nos tocou por estarmos pessoalmente muito mexidos por descobrir pessoas próximas que apoiavam esses regimes”, reitera.

Outro ponto que motivou os dois cineastas foi a vontade de trabalhar com a memória da ditadura militar brasileira. “A verdade é que no Brasil a gente esqueceu muito rapidamente o que aconteceu”, lamenta Gustavo Galvão, que se diz chocado com o fato de a revelação recente de casos de crianças sequestradas por militares não ter repercutido na imprensa.

Os dois diretores também destacam o objetivo estético do filme, que trabalha com a linguagem das “vídeo-cartas”. A escolha fornece um aspecto documental ao trabalho, apesar de ser um filme de ficção inspirado em histórias reais.

“Há muitos sobreviventes desses crimes vivos, mas é difícil hoje em dia achar as provas e as origens, e muitos casos estão sem solução”, ressalta Cristiane. “O diferencial da Argentina é que teve julgamento, logo em seguida que tudo aconteceu. No Brasil não teve, então muita coisa foi sendo jogada para debaixo do tapete”, reitera.

O trauma e a dor dos sobreviventes

Para Gustavo, é difícil conceber que os criminosos que participaram deste tipo de violência não foram responsabilizados. No entanto, para o cineasta, ainda pior é o trauma dos sobreviventes, uma dor que a personagem Veronica relata no filme.

“Você perder a identidade com mais de 40 anos, quase 50 anos, eu não sei como alguém consegue se recuperar disso”, diz. “Construindo a personagem da Veronica, a gente se viu em determinados momentos pensando que não deve ter nada pior do que isso”, completa.  

Ironia do destino, a personagem Luiza, a sobrinha da protagonista do filme a quem são endereçadas as cartas-vídeo, foi criada em uma família ultraconservadora gaúcha. A mãe da jovem, que adoeceu e morreu, chegou a conhecer a irmã sequestrada antes de morrer, mas escolheu manter o segredo. Por meio dos relatos enviados a Luiza, Veronica tenta alertá-la de publicações que a garota faz nas redes sociais que fazem apologia ao regime militar.

“A Veronica tenta entender por que pessoas próximas que tiveram acesso à educação preferem colocar uma barreira em certos assuntos e não aceitam o diálogo”, afirma Gustavo. “Quando a gente chega neste ponto, não é mais nem uma questão de ser direita ou de esquerda, mas humanista mesmo”, reitera.

“A gente precisa conversar com os jovens"

O diretor salienta o distanciamento da juventude brasileira dos crimes cometidos durante a ditadura militar. Por isso, para ele, é fundamental resgatar e comunicar essas memórias.

“A gente precisa conversar com os jovens, não contar o que aconteceu de uma forma didática, mas trazer o lado humano dessas histórias. Temos que resgatar essa humanidade e os jovens têm um papel importantíssimo nisso.”

O filme, que estreia em pleno ano eleitoral no Brasil, também retrata o temor dos cineastas de que a história se repita. “A gente percebe que o diálogo não é mais suficiente diante de um exército digital que trabalha todos os dias para mandar conteúdo e desinformação para essas pessoas em uma narrativa revisionista do passado”, completa Cristiane.  

Gustavo expressa sua esperança de que o cinema brasileiro, por meio de recentes sucessos que também abordam a ditadura militar – como “Ainda Estou Aqui” e “Agente Secreto” – contribua para conscientizar o eleitorado. “A gente tem que estar sempre regando a memória. Se a gente esquece dela, ela definha e morre, o que é do interesse de muita gente”, observa Gustavo.

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