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Documentário 'Copan' disputa prêmio no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris

30/03/2026
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Como o próprio nome diz, "Copan" aborda o cotidiano do imenso edifício em São Paulo projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1950, símbolo da arquitetura moderna brasileira. O olhar da jornalista e cineasta Carine Wallauer sobre funcionários e moradores do prédio renderam um cativante documentário que venceu o prêmio principal do célebre festival "É Tudo Verdade", em 2025. Depois de ter passado pelo Cinélatino, em Toulouse, o público da capital francesa poderá assistir ao trabalho no Festival de Cinéma Latino-americano de Paris, em 10 de abril, onde concorre na categoria de longa-metragem. 

Daniella Franco, da RFI

O edifício Copan foi a casa de Carine Wallauer durante sete anos, dos quais cinco passou produzindo o filme. O objetivo, segundo ela, era fazer um retrato cinematográfico deste icônico prédio paulistano. "É uma história que se cruza com a minha própria história", resume. 

No entanto, diferentemente das reportagens produzidas sobre o Copan ao longo de seus 60 anos de existência, que mais focaram nos moradores, a cineasta decidiu se concentrar no cotidiano dos funcionários. "Eu venho de uma família da classe trabalhadora, e eu mesma trabalhei em shopping durante sete anos, então prestei serviços para outras pessoas. Eu entendo o quanto essa classe não é ouvida, principalmente em assuntos considerados mais formais, mais sérios, como política, por exemplo", diz.

Boa parte das gravações foi realizada em 2022, período no qual o prédio se tornou um microcosmo da campanha para as últimas eleições presidenciais. No filme, Carine ainda retrata a eleição para síndico do Copan, um processo com uma tensão comparável à do pleito nacional. "Eu queria muito ouvir o que eles pensavam sobre política e sobre o que é viver neste lugar", ressalta. 

Por outro lado, a cineasta decidiu não exibir nenhum trecho das mais de 50 horas de entrevistas com empregados e moradores do Copan por ter optado por realizar um filme de observação. Por isso, sua câmera segue os acontecimentos e movimentações no edifício sem interagir diretamente com os personagens. "Ele é um documentário que se expande, com características de um cinema de arte, em que a ficção se mistura com a linguagem do documentário", explica. 

Segundo Carine, o fato de ser uma moradora do Copan a ajudou a retratar o cotidiano do local, facilitou a entrada em alguns apartamentos e em espaços do edifício que quase ninguém tem acesso, como um redário, onde os empregados descansam. "Algumas portas se abriram naturalmente por eu morar lá. Eu não fui uma diretora, uma jornalista que chegou neste lugar para passar um dia. Quando começamos, eu já estava ali há dois anos. Havia uma familiaridade de algumas pessoas comigo, principalmente dos funcionários ", diz. 

Intimidade da natureza do prédio

Carine conta que quando o então síndico do Copan, Afonso — que ocupou o cargo por 35 anos e faleceu em dezembro passado — lhe concedeu acesso a locais restritos do edifício, o documentário tomou outro rumo. "Ele tinha muito cuidado e muita desconfiança de como seria abordada a história do prédio. Então, quando ele me deixou acessar esses lugares, o filme se transformou. Por isso, mais do que mostrar a intimidade dentro dos apartamentos, a gente mostra uma intimidade da própria natureza do prédio", destaca.

Segundo a cineasta, a trajetória de "Copan" foi sendo conduzida a partir das descobertas e do diálogo com os trabalhadores do local, entre os quais muitos não tinham a cultura do cinema. "Então tivemos muitas conversas onde eu explicava o que era o filme, como a gente ia fazer, como eles seriam colocados diante da câmera. Foi um trabalho de junção coletiva e que resultou com eles se vendo no cinema, muitos indo ao cinema pela primeira vez para se ver", comemora. 

Carine admite que a estreia do filme na Europa, no ano passado, lhe suscitou certa ansiedade por acreditar que os expectadores não teriam contexto para a compreensão total de seu trabalho. No entanto, a reação do público a surpreendeu. "A primeira sessão pública do filme foi em Copenhague e foi incrível! A gente teve três sessões lotadas e ainda foi aberta uma quarta sessão", festeja. 

Fora do Brasil, "Copan" também foi exibido no México, Suécia, Suíça, França e, em breve, será projetado na Bélgica e na República Tcheca. Segundo Carine, cada audiência reage de uma forma, mas o interesse pela condição humana une os públicos. "É um filme sobre um prédio, mas não só sobre arquitetura. É um filme sobre arquitetura, sobre relações, sobre como a gente exerce a democracia no nosso dia a dia e como a gente opera a nossa subjetividade nesses espaços de grande circulação", diz. 

Apesar do sucesso do filme no Brasil e internacionalmente, a cineasta hesitaria se estivesse diante da possibilidade de voltar a morar no Copan. Ela conta que teve de deixar o apartamento em que morava no edifício às pressas quando ele foi vendido. "No começo eu fiquei bastante frustrada, triste. Mas hoje olhado em retrocesso eu sinto que a minha missão com o prédio foi cumprida. Acho que foram sete anos incríveis e tenho certeza de que eu fiz o possível para registrar um momento histórico do Copan", conclui. 

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