No escuro podcast

Balane3e Ico Costa: falamos sobre sexo em Moçambique (e tiramos o elefante da sala)

27/02/2026
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Tem sido pouco mais do que confidencial o impacto causado pelas curtas e longas-metragens do cineasta português Ico Costa. Injusto porque todas elas amorosamente levitam no contacto com um espaço eleito e com as pessoas que nele habitam: a península que coloca a cidade de Inhambane a acenar para a cidade que está em frente, Maxixe; como Lisboa faz a Almada.

É a costa ocidental de África, é o sul de Moçambique. Com um lirismo contido, com empatia para com personagens que se expõem com uma frontalidade tal que o resultado, a intimidade, qualquer cineasta invejará. Passando constantemente do documental para a ficção, eis conversas sobre a vida sexual dos moçambicanos.

Pedimos contexto — e damos algum, neste podcast. Queremos programação na Cinemateca; até nos atrevemos a desejar por uma caixa de DVD. Tudo para colocar no mapa as curtas deste realizador e as longas O Ouro e o Mundo (2024), Balane 3 (2025), que esta semana chega às salas, e a primeira longa, Alva, (2020), a única filmada em Portugal.

Há, neste percurso, flutuações entre zonas de luz e zonas de sombra e mesmo de escuridão. Alguns filmes são sobre aquilo que Ico Costa sente sobre Moçambique: a alegria, a necessidade de futuro, a dança e o sexo, a juventude. Outros são sobre aquilo que o cineasta sabe: a ditadura do partido único, a corrupção, o horizonte interceptado. Mas vence em todos a ideia de que se as imagens sobre o país, quando as há, falam sempre da miséria e da pobreza, Moçambique é muito para além disso.

Balane 3 só chega agora às salas portuguesas, de forma discreta, como que a pedir que não se repare nele, porque em Abril do ano passado foi cancelado, juntamente com o seu realizador. A direcção do festival IndieLisboa, em vésperas do início da sua 22.ª edição, que aconteceria em Maio, retirava o filme da programação após uma denúncia de alegada violência cometida por Ico Costa sobre uma suposta denunciante que num email enviado à imprensa assinava como “Joana Sousa Silva”.

Esse gesto teve o efeito de uma condenação — fora do sistema judicial. Quase um ano depois, nem a dúvida se sanou nem a vítima, "Joana Sousa Silva", foi identificada. Ico Costa, que negou as acusações, apresentou uma queixa-crime para que o Ministério Público investigue e responsabilize a verdadeira pessoa por trás do mail “anónimo” e de “identidade falsa”. O PÚBLICO sabe que uma pessoa do sexo masculino está sob investigação.

Temos agora um filme. O que fazemos com ele?

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

Vamos falar de cinema?

Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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