No escuro podcast

"A Voz de Hind Rajab": de Gaza a Auschwitz, o que pode um filme mostrar?

13/02/2026
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Como documento enxertado num filme de reconstituição, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania utilizou a voz de uma criança palestiniana no momento em que ela pediu ajuda antes de ser abatida pelas forças israelitas.

Hind Rajab, 6 anos, fugia de carro com a família do Norte de Gaza — estávamos a 29 de Janeiro de 2024 — quando o grupo foi surpreendido por um tanque. Os disparos mataram as seis pessoas que iam na viatura, e isso incluía os tios e os primos da criança, mas durante três horas houve contacto telefónico entre Hind Rajab, que inicialmente sobrevivera, com o ramo palestiniano da associação humanitária Crescente Vermelho, em Ramallah.

Esforçavam-se por manter Hind Rajab calma e viva. Até finalmente se ouvir uma explosão e ela deixar de responder. Eram 19h. Os dois paramédicos, enviados com uma ambulância para socorrer a criança, foram também mortos.

A câmara de Kaouther Ben Hania está colocada no cenário que reconstitui as instalações do Crescente Vermelho; actores interpretam os voluntários que atenderam a chamada de Hind Rajab. Mas a voz que os actores ouviram no set era a verdadeira voz da criança; o ficheiro com o som tinha sido partilhado enquanto tudo decorria nesse 29 de Janeiro de 2024 para tentar impedir a consumação da tragédia.

A Voz de Hind Rajab, Grande Prémio do Júri em Veneza 2025, recepção tão apoteótica quanto céptica no festival, atravessa uma fronteira moral, mistura o que não deve ser misturado, o jogo da ficção com o irremediável da realidade, a vida e a morte?

É uma das questões que marca este episódio de No Escuro. O que nos levou a meter na conversa outras obras igualmente reveladoras do poder do cinema e da sua violência, como Com a Alma na Mão Caminha, de Sepideh Farsi, e No Other Land, realizada por um quarteto israelo-palestiniano liderado por Basel Adra (palestiniano) e Yuval Abraham (israelita), títulos estreados o ano passado, este último até oscarizado, mas também um filme de 2015, O Filho de Saul, do húngaro Lazlo Nemes, em que o cinema vai a Auschwitz, que reactivou os dogmas sobre os limites da figuração do Holocausto.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

Vamos falar de cinema? Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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