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Em meio a guerras, Leão XIV marca sua primeira Páscoa como papa carregando cruz na Via Sacra

03/04/2026
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Nesta Semana Santa, marcada pelo conflito no Oriente Médio, Leão XIV celebra a primeira Páscoa de seu pontificado. As cerimônias ocorrem um ano após a morte de seu antecessor, Francisco. O pontífice americano traz também algumas novidades na celebrações, retomando algumas tradições antigas.

Gina Marques, correspondente RFI na Itália

A primeira celebração da Páscoa sob o pontificado de Leão XIV é marcada por uma novidade de forte simbolismo. Na noite desta sexta-feira (3) durante o rito da Via Sacra no Coliseu, o papa - que tem 70 anos - carregará pessoalmente a cruz de madeira ao longo das 14 estações que narram o calvário de Jesus, da condenação à morte até o sepultamento.

A decisão de conduzir a cruz em todas as estações da Via Sacra chamou atenção por seu caráter excepcional. Em tempos recentes, nenhum pontífice portou a cruz percorrendo todas as etapas que relembram os últimos momentos da vida de Cristo.

Embora não tenha as dimensões nem o peso da cruz histórica - que segundo estimativas pesava cerca de 70 quilos - a iniciativa é voltada às dores do presente. O gesto de Leão XIV pode ser interpretado como a sua vontade de ressaltar o sofrimento de Cristo e das vítimas dos conflitos em curso, como as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, além da devastação, dos abusos e da violência sistemática contra inocentes.

Reação do papa contra a guerra

Esta semana começou tensa devido aos conflitos na chamada Terra Santa. O Patriarca Latino de Jerusalém, o cardeal italiano Pierbattista Pizzaballa, teve sua entrada no Santo Sepulcro negada pelas autoridades israelenses, algo que não acontecia “há séculos”.

Leão XIV é o primeiro pontífice norte-americano da Igreja Católica, mas desde que foi eleito em maio do ano passado, ele evitou comentários sobre seu país natal e nunca havia mencionado publicamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Recentemente o papa mudou de tom e criticou abertamente a guerra do Irã. Na última terça-feira ele mencionou pela primeira vez Trump publicamente, ao pedir que o presidente americano encontrasse uma “saída” para acabar com a guerra.

Dois dias antes de fazer esse apelo direto a Trump, Leão XIV disse que Deus rejeitou as orações de líderes que iniciam guerras e têm “mãos cheias de sangue”. Os comentários foram interpretados como sendo dirigidos ao secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que invocou a linguagem cristã para justificar os ataques conjuntos dos EUA e de Israel contra o Irã que iniciaram a guerra.

Com Leão XIV retorna à tradição

O Leão XIV retomou a tradição na cerimônia do “Lava-Pés” celebrada na quinta-feira (2) na Basílica de São João de Latrão com 12 sacerdotes. O rito recria o gesto de serviço de Cristo na Última Ceia com os apóstolos. Ele rompeu com a prática de Francisco, que lavava os pés de detentos, migrantes ou pessoas em situação de rua, simbolizando o cuidado com os marginalizados.

Durante a cerimônia, Leão XIV ressaltou que a ação repete o gesto de humildade de Jesus na noite anterior à sua morte. A celebração deveria inspirar os católicos a cuidar dos necessitados.

"À medida que a humanidade é colocada de joelhos por tantos atos de brutalidade, vamos também nos ajoelhar como irmãos e irmãs ao lado dos oprimidos", disse Leão.

“Deus nos deu um exemplo não de como dominar, mas de ‌como libertar”, disse o papa, antes de se abaixar para derramar água secar e beijar os pés de cada um dos 12 homens.

Segundo fontes do Vaticano, Leão decidiu lavar os pés dos padres este ano para demonstrar apoio ao clero católico, que geralmente trabalha longas horas e lidera mais de uma paróquia.

O papa também dedicou sua oração mensal de abril aos sacerdotes, pedindo aos 1,4 bilhão de católicos do mundo que rezassem para que Deus cuidasse deles ‌e os encorajasse.

Papa Francisco

Vale lembrar que em 2025 as celebrações da Semana Santa foram marcadas pelas últimas aparições públicas do papa Francisco. Entre os católicos, a memória do pontífice argentino permanecerá viva.

Na cerimônia do Lava-Pés do ano passado, quando estava se recuperando de uma ‌pneumonia dupla, Francisco fez uma visita surpresa ao Regina Coeli de Roma, uma das prisões mais superlotadas da Itália, para desejar felicidades aos detentos.

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