Histórias de ter.a.pia podcast

Ela levou dois meninos de rua para sua casa e os adotou

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Maria não imaginava que se tornaria mãe de dois meninos que viviam nas ruas de Campinas.

Na região central de Campinas, meninos em situação de rua eram vistos como problema. Eles viviam largados, corriam, roubavam, assustavam quem andava por ali e, por isso, eram expulsos da igreja, das lojas e de qualquer lugar que estivessem perto.

Ninguém queria por perto aquelas crianças, até que o Padre da catedral pediu para um grupo de moças, que iam lá rezar, fazer alguma coisa. Maria começou a se mexer. Ela corria atrás daqueles meninos, oferecia lanche, conversava, criava jogos e desafios.

Num primeiro momento, eles iam desconfiados, mas pelo lanche se aproximavam, e depois voltavam para a rua. Vinham sujos, com fome, com medo de Maria ser do juizado de menores.

Quando ela ganhou a confiança deles, se via cercada por dezenas de crianças na escadaria da catedral, e ali percebeu que não dava mais para voltar atrás. Era preciso dar um jeito para que eles não seguissem num caminho sem acolhimento.

Mas quem acolhe os indesejados vira motivo de julgamentos. Diziam para ela que aqueles moleques que não tinham solução, não tinham conserto. Maria ouvia tudo, mas seguiu o seu coração. Ela sabia que eles não viviam naquelas condições porque queriam, eram apenas crianças.

Junto com seu grupo da igreja, conseguiram dinheiro e alugaram um espaço que, num primeiro momento, oferecia café da manhã e oficinas de trabalho manual. Ela que era costureira da alta sociedade campinense, começou a mexer de artesanato com palha até marcenaria.

A casa se tornou a instituição Casa Maria do Nazaré, que há anos muda a vida de crianças em situação de vulnerabilidade. Mas foi a história de Maria que a instituição mudou pra sempre.

O maior ponto de virada veio quando dois meninos, dos mais atentados, iam até a casa de Maria e assoviavam na janela. Ela pedia para o porteiro liberar a entrada, e eles iam tomar café com ela. Até que um dia ela perguntou se eles gostariam de morar ali com ela, e eles responderam sim, sem nem questionar.

Mais julgamentos vieram, principalmente de um rapaz com quem Maria se relacionava. Ele dizia que ela iria ser roubada, que aqueles moleques iriam levar drogas para a casa dela, e deu um ultimato: ou ele ou os meninos.

Maria escolheu os meninos, entrou na justiça pela guarda dos dois. Ela, que não teve filhos biológicos, se tornou mãe daquelas crianças que todo mundo tinha medo. Ela mostrou para eles o que era o amor de verdade.

Quase 40 anos depois, os dois meninos cresceram. Têm casa, trabalho, família e seguem o legado da mãe ajudando pessoas em vulnerabilidade.

Cresceram sabendo, na pele, que nenhuma criança nasce sem conserto. O que falta, quase sempre, é alguém que não desista no meio do caminho.

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