
Lúcia Vicente: “É mais eficaz ter mulheres a convencer outras mulheres a perderem direitos”
Durante décadas, o feminismo procurou ampliar a liberdade, os direitos e as oportunidades das mulheres. Hoje, porém, cresce um movimento que o aponta como responsável por muitos dos males da sociedade. E não são apenas os gurus da machosfera a fazê-lo. Como alerta a historiadora Lúcia Vicente, também há mulheres que defendem um regresso aos papéis tradicionais de género.
Sob a bandeira das tradwives, promovem a submissão feminina, a dependência económica e a esfera doméstica como caminho privilegiado para a felicidade.
Tradwives, redpill, machosfera, feminismo reaccionário ou gurus digitais deixaram de ser simples chavões da internet para se tornarem movimentos com influência crescente sobre a forma como milhares de jovens olham para as mulheres, os homens e a própria democracia.
Neste episódio do podcast Um Género de Conversa, Lúcia Vicente, autora de Portuguesas com M Grande e Feminismo de A a Ser, traça o retrato de um universo que cresce à velocidade dos algoritmos. “Temos mesmo de ensinar as pessoas mais novas a questionar o mundo e as consequências destas ideias na vida dos outros”, defende.
Ao longo de 50 minutos de conversa, a investigadora explica como estes movimentos exploram inseguranças e recuperam discursos antigos, revestindo-os de uma estética apelativa e de uma linguagem aparentemente moderna.
“É o regresso do grande macho, de uma masculinidade performativa, exagerada, violenta, profundamente ligada ao antifeminismo e à misoginia”, afirma, preferindo o termo “machosfera” a “manosfera”.
A preocupação, contudo, não se limita aos rapazes. Lúcia Vicente alerta para comunidades dirigidas às mulheres, como as tradwives, que promovem o regresso aos papéis tradicionais de género e apresentam a submissão feminina, o papel exclusivo de cuidadora e os valores cristãos como caminhos para a felicidade. “O patriarcado percebeu que a forma mais eficaz de convencer as mulheres a abdicar de direitos era utilizar outras mulheres para lhes dizer que isso era bom para elas”, ressalva.
Tal como na machosfera, também aqui o feminismo surge como a causa de todos os males: a liberdade sexual feminina é um problema, assim como a visão interseccional da sociedade, cuja suposta “ordem natural” das responsabilidades de homens e de mulheres tem de ser reposta.
A estratégia parece funcionar, como mostram conteúdos crescentes nas redes sociais em que jovens mulheres de 18 anos expõem as suas vidas após as abandonarem para casar, ter filhos e depender financeiramente dos maridos, a quem estão, inclusive, dispostas a ceder o seu direito ao voto.
Um fenómeno alimentado por influenciadoras conservadoras, amiúde ligadas a partidos de extrema-direita e movimentos religiosos, que, apesar de defenderem a submissão feminina, construíram negócios milionários que lhes garantem autonomia e poder.
Para contrariar estas “narrativas manipuladoras”, a historiadora defende que o feminismo deve envolver também os homens. “Se o patriarcado tem no homem o seu maior aliado, por que razão não estamos também a educar homens para serem feministas e para desconstruírem o privilégio?”, questiona. A reflexão estende-se à influência dos algoritmos, à captação de adolescentes por discursos extremistas e à necessidade urgente de capacitar pais, professores e educadores para reconhecer estes fenómenos.
"Primeiro, temos de educar quem educa. Pais, mães, professores e avós precisam de conhecer esta linguagem, estes símbolos e estes movimentos. Só assim conseguirão reconhecer os sinais”, explica a escritora. "As crianças já não brincam na rua, porque achamos que é perigoso, mas depois deixamos que passem horas a conversar com desconhecidos através dos jogos online. É aí que também precisamos estar atentos."
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